quarta-feira, 15 de maio de 2013

O circo, o menino, a vida- Mário Quintana


O Circo o Menino a Vida


A moça do arame
Equilibrando a sombrinha
Era de uma beleza instantânea e fulgurante!
A moça do arame ia deslizando e despindo-se.
Lentamente.
Só para judiar.
E eu com os olhos cada vez mais arregalados
até parecerem dois pires.
Meu tio dizia:
"Bobo!
Não sabes
que elas trazem sempre uma roupa de malha por baixo?"
(Naqueles voluptuosos tempos não havia maiôs nem biquínis...)
Sim! Mas toda a deliciante angústia dos meus olhos virgens
segredava-me
sempre:
"Quem sabe?..."
Eu tinha oito anos e sabia esperar.
Agora não sei esperar mais nada
Desta nem da outra vida,
No entanto
o menino
(que não sei como insiste em não morrer em mim)
ainda e sempre
apesar de tudo
apesar de todas as desesperanças,
O menino
às vezes
segreda-me baixinho
"Titio, quem sabe?..."
Ah, meu Deus, essas crianças!

Um comentário:

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