quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Feijoada- Ciça



                             Feijoada
                                   Ciça

          Pedro e Próspero Procópio,
          Cada um tem o seu porco,
          Cada porco o dono próprio.

          O porco preto do Pedro
          É o porco do corpo gordo,
          Um belo porco sestroso,
          Gordo e grande que dá gosto.

          O porco do próspero é magro,
          Um porco trôpego, branco,
          Troncho, bronco, pobre porco,
          De borco no lodo do prado,
          O prado próximo à ponte,
          A ponte perto do porto.

          Porco magro, porco gordo...

          É certo porém que pra porco
          Pouco peso é boa sorte,
          É coisa de santo forte:
          Um porco de lombo parco
          Fica pra sempre no prado.
          Porém, ser gordo pra porco
          É um perigo de morte:
          Um grande lombo lustroso

          Mostra que já está pronto,
          Pronto pro encontro, no ponto:
          - E o pobre não sabe de nada
          Que é um porco pronto pro encontro
          De sábado na feijoada...
  

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Infância- João Cabral de Melo Neto

                  
          Sobre a lado ímpar da memória
          O anjo da guarda esqueceu
          perguntas que não respondem.

          Seriam hélices
          aviões locomotivas 
          timidamente precocidade
          balões cativos si bemol?

          Mas meus dez anos indiferentes
          rodaram mais uma vez
          nos mesmos intermináveis carrosséis.    

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O vaga-lume- Fagundes Varela

Quem és tu, pobre vivente,
Que passas triste sozinho,
Trazendo os raios da estrela
E as asas do passarinho?
.
A noite é negra, raivosos
Os ventos sopram do sul;
Não temes, doido que apaguem
A tua lanterna azul?
.
Quando apareces o lago
De estranhas luzes fulgura;
Os mochos voam medrosos,
Buscando a floresta escura.
.
As folhas brilham, refletem,
Como espelhos de esmeralda:
Fulge o iris nas torrentes
Da serrania na fralda.
.
O grilo salta das sarças,
Pulam gênios nos palmares,
Começa o baile dos silfos,
no seio dos nenufares.
.
A tribo das borboletas,
Das borboletas azuis,
Segue teus giros no espaço,
Mimosa gota de luz.
.
São elas flores sem haste,
Tu és estrela sem céu;
Procuram elas as chamas, 
Tu amas da noite o véu.
.
Onde vais, pobre vivente,
Onde vais triste, mesquinho,
Levando os raios da estrela
Nas asas do passarinho?
.

Roseana Murray: poesia, infância, natureza e delicadeza em forma de palavra

  Introdução Roseana Murray é uma das grandes vozes da poesia brasileira contemporânea voltada também para o universo infantil. Sua obra apr...