sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O caroço- Bastos Tigre



                     O Caroço
                            Bastos Tigre
         
           Eu comi ontem no almoço
           A azeitona de um empada;
           Depois botei o caroço
           Sobre a toalha engomada.

           Mas mamãe logo nota
           E me ensina com carinho:
           -O caroço não se bota
           Sobre a toalha, meu benzinho.

           O que ele me diz eu ouço
           Sempre, com toda atenção!
           A perguntei-lhe:- O caroço
           Mamãe, onde boto então?

           -Toda pessoa de linha,
           De educação. de recato
           O osso, o caroço, a espinha
           Põe num cantinho do prato.

           E eu então lhe respondo,
           Com respeitoso carinho:
           Mas meu prato é redondo,
           Meu prato não tem cantinho...

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Feijoada- Ciça



                             Feijoada
                                   Ciça

          Pedro e Próspero Procópio,
          Cada um tem o seu porco,
          Cada porco o dono próprio.

          O porco preto do Pedro
          É o porco do corpo gordo,
          Um belo porco sestroso,
          Gordo e grande que dá gosto.

          O porco do próspero é magro,
          Um porco trôpego, branco,
          Troncho, bronco, pobre porco,
          De borco no lodo do prado,
          O prado próximo à ponte,
          A ponte perto do porto.

          Porco magro, porco gordo...

          É certo porém que pra porco
          Pouco peso é boa sorte,
          É coisa de santo forte:
          Um porco de lombo parco
          Fica pra sempre no prado.
          Porém, ser gordo pra porco
          É um perigo de morte:
          Um grande lombo lustroso

          Mostra que já está pronto,
          Pronto pro encontro, no ponto:
          - E o pobre não sabe de nada
          Que é um porco pronto pro encontro
          De sábado na feijoada...
  

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Se as coisas fossem mães- Sylvia Orthof

SE AS COISAS FOSSEM MÃES

Sylvia Orthof

e a lua fosse mãe, seria mãe das estrelas,
O céu seria sua casa, casa das estrelas belas.

e a sereia fosse  mãe, seria mãe os peixinhos,
O mar seria um jardim e os barcos seus caminhos.

e a casa fosse mãe, seria a mãe das janelas,
Conversaria com a lua sobre as crianças-estrelas,
Falaria de receitas, pastéis de vento, quindins,
Emprestaria a cozinha pra lua fazer pudins!


e a terra fosse mãe, seria mãe das sementes,
pois mãe é tudo que abraça, acha graça e ama a gente.

e uma fada fosse mãe,
seria a mãe da alegria.
Toda mãe é um pouco fada... Nossa mãe fada seria.


e uma bruxa fosse mãe, seria mamãe gozada:
Seria a mãe das vassouras, da Família Vassourada!
e a chaleira fosse mãe, seria a mãe da água fervida,
Faria chá e remédio para as doenças da vida.

e a mesa fosse mãe, as filhas, sendo cadeiras,
Sentariam comportadas, teriam “boas maneiras”.


ada mãe é diferente:
Mãe verdadeira, ou postiça, mãe-vovó, mãe titia,
Maria, Filó, Francisca, Gertrudes, Malvina, Alice,
toda mãe é como eu disse.

ona Mamãe ralha e beija,
Erra, acerta, arruma a mesa, cozinha, escreve, trabalha fora,
Ri, esquece, lembra e chora, traz remédio e sobremesa.


em até pai que é “tipo-mãe”...
Esse, então, é uma beleza 

Infância- João Cabral de Melo Neto

                  
          Sobre a lado ímpar da memória
          O anjo da guarda esqueceu
          perguntas que não respondem.

          Seriam hélices
          aviões locomotivas 
          timidamente precocidade
          balões cativos si bemol?

          Mas meus dez anos indiferentes
          rodaram mais uma vez
          nos mesmos intermináveis carrosséis.    

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O vaga-lume- Fagundes Varela

Quem és tu, pobre vivente,
Que passas triste sozinho,
Trazendo os raios da estrela
E as asas do passarinho?
.
A noite é negra, raivosos
Os ventos sopram do sul;
Não temes, doido que apaguem
A tua lanterna azul?
.
Quando apareces o lago
De estranhas luzes fulgura;
Os mochos voam medrosos,
Buscando a floresta escura.
.
As folhas brilham, refletem,
Como espelhos de esmeralda:
Fulge o iris nas torrentes
Da serrania na fralda.
.
O grilo salta das sarças,
Pulam gênios nos palmares,
Começa o baile dos silfos,
no seio dos nenufares.
.
A tribo das borboletas,
Das borboletas azuis,
Segue teus giros no espaço,
Mimosa gota de luz.
.
São elas flores sem haste,
Tu és estrela sem céu;
Procuram elas as chamas, 
Tu amas da noite o véu.
.
Onde vais, pobre vivente,
Onde vais triste, mesquinho,
Levando os raios da estrela
Nas asas do passarinho?
.

A terra em que nasceste

  Introdução O poema “Pátria” , de Olavo Bilac , convida a criança a olhar com amor, orgulho e admiração para a terra em que nasceu. Em ver...