OS PRIMEIROS
O que me separa do primeiro homem, da primeira mulher do mundo, dos seus medos, pavores, desejos, anseios?
O que me separa quando o último fio de lua ilumina a última folha da mata e em silêncio a manhã já se desgarra?
Uma fina película de tempo, um grão de poeira de tempo.
BASTAM SEIS
Dizem que bastam seis, seis homens ou mulheres para que se alcance qualquer pessoa perdida em qualquer lugar sobre a face da Terra.
E os que se mudaram para as estrelas, os que já se foram e apagaram o cenário, os que perdemos para sempre, como alcançá-los, como atravessar seu silêncio espesso, a sua falta de substância, a sua dolorosa luz?
In Diário da Montanha, ed. Manati, 2012
HIBISCO
Há flores que se comem como se fossem frutas, numa comunhão entre os olhos, a boca, o jardim. Hibiscos coloridos, caprichosos, derramam no prato a sua beleza, passageira como um relâmpago, e ao morder um hibisco nos transformamos em poesia.
Abecedário (Poético) de Frutas, ed. Rovelle, 2013
ROUPA SUJA SE LAVA EM CASA
Nem teria graça lavar roupa suja no meio da rua, no meio dos carros, com o sinal aberto ou fechado. Mas em alguns lugares ainda se lava roupa suja nos rios e é uma bela cena para pintar aquarelas. também se pode lavar roupa suja com água da chuva mas é perigoso: a roupa pode ficar com gosto de céu.
A PALAVRA É DE PRATA E O SILÊNCIO É DE OURO
O silêncio é uma caixa imensa onde cabem e ressoam todas as palavras e há que pescá-las com cuidado. Existem as redondas e macias, palavras vaga-lumes, que iluminam a boca de amor e doçura, e outras com espinhos, essa é melhor deixar no fundo da caixa do mundo.
Dentro do silêncio as palavras iluminadas nadam como peixes dourados.
In Quem vê cara não vê coração, ed. Callis & Instituto Houaiss, 2012
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TERRACOTA
Da terra retiro
sua gama de cores: ocre, vermelho, ferrugem, terracota, outono, o sol.
E pinto a alma em pinceladas grossas, camada sobre camada, para aguentar o peso do céu.
In Roseana Murray – Poemas para ler na escola, Ed. Objetiva, 2011
CASA
Retiro o lastro da casa, suas raízes na terra, corto as amarras, as cordas, tudo o que pesa se esvai.
Deixo que a tarde com seu ar azul, inunde a casa de luz, retiro dos quatro cantos a dor acumulada, as flores mortas e então, livre de todo o peso, o relógio bate apenas as horas de alegria e em volta da mesa todos os que partiram, os que ficaram, entrelaçam as mãos.
A casa voa.
In Roseana Murray – Poemas para ler na escola, Ed. Objetiva, 2011
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DANÇA
Então a vida é uma dança de fogo com a nossa sombra? Sentimentos explodem, um incêndio a cada passo. como entrelaçar todas as músicas que me habitam?
In Roseana Murray – Poemas para ler na escola, Ed. Objetiva, 2011
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