Ecoa nos ares o minarete,
e dele escapa
um grito pungente,
feito pássaro que houvesse
fugido
de uma gaiola dourada.
É a hora sagrada:
todo homem tem um encontro
marcado com Deus
e mistura as orações com saliva,
como a mãe que oferece
ao filho
pedaços da sua própria comida
| CINCO Percorrer o silêncio do deserto, sua espinha dorsal feita de murmúrios, vertigens, caravanas, o ruminar dos camelos. Numa noite escura uma fonte escondida fabrica sonhos e água. VINTE E DOIS Rente ao muro o homem caminha. Seu corpo encharcado de orações carrega um bastão sagrado. Com seus passos costura o oriente ao ocidente. in Desertos, ed. Objetiva, 2006
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JANELAS
Em todas as janelas me debruço,
em todos os abismos
estendo uma corda
e caminho sobre o nada.
Também ando sobre as águas,
subo em nuvens,
galgo intermináveis escadas.
Abro todas as portas
e cavernas com um sopro
ou três palavras mágicas.
Mergulho em torvelinhos,
danço no meio do vento,
pulo dentro da tempestade.
Em cada encruzilhada me sento
e tento arrumar o destino,
estranho castelo de areia.
| AVESSO Atravessaria um rio grosso no meio da noite para decifrar tuas pegadas, o rastro luminoso dos teus olhos. Atravessaria a superfície silenciosa dos espelhos para ver o teu avesso. Caminharia sobre água e fogo para soletrar teu corpo. in Recados do Corpo e da Alma, ed. FTD, 2003
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