quarta-feira, 29 de maio de 2013

Canção de muito longe-Mário Quintana



Foi-por-cau-sa-do-bar-quei-ro
E todas as noites, sob o velho céu arqueado
de bugigangas,
A mesma canção jubilosa se erguia.
Acanoooavirou
Quem fez ela virar? Uma voz perguntava.
Os luares extáticos...
A noite parada...



Foi-por-cau-sa-do-bar-quei-ro
E todas as noites, sob o velho céu arqueado
de bugigangas,
A mesma canção jubilosa se erguia.
Acanoooavirou
Quem fez ela virar? Uma voz perguntava.
Os luares extáticos...
A noite parada...
Foi por causa do barqueiro,
Que não soube remar.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Canção do charco- Mário Quintana


Uma estrelinha desnuda
Está brincando no charco.
Coaxa o sapo. E como coaxa!
A estrelinha dança em roda.
Cricrila o grilo. Que frio!
A estrelinha pula, pula.
Uma estrelinha desnuda
Dança e pula sobre o charco.
Para enamorá-la o sapo
Põe seu chapéu de cozinheiro...
Uma estrelinha desnuda!
O grilo, que é pobre, esse
Escovou seu traje preto...
Desnuda por sobre o charco!
Uma estrelinha desnuda
Brinca... e de amores não cuida...
Que brancos são seus pezinhos...
Que nua!
Mário Quintana (1906- 1994)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

O Poeta e a Sereia - Mário Quintana Eu é que sinto frio agora...

   Sereiazinha do rio Ibira...

          Feiosa,
          Até sardas tem.
          Cantar não sabe:
          Olha e me quer bem.
           Seus ombros tem frio.
           Embalo-a nos joelhos,
           Ensino-lhe catecismo
           E conto histórias que inventei especialmente para o seu espanto.

           Um dia ela voltou para o seu elemento!

                                                         Sereiazinha,
                                                         Eu é que sinto frio agora...
                                                      

domingo, 19 de maio de 2013

Canção de um dia de Vento- Mário Quintana

O vento vinha ventando
Pelas cortinas de tule.

As mãos da menina morta
Estão varadas de luz.
No colo, juntos, refulgem
coração, âncora e cruz.

Nunca a água foi tão pura...
Quem a teria abençoado?
Nunca o pão de cada dia
Teve um gosto mais sagrado.

E o vento vinha ventando
Pelas cortinas de tule...

Menos um lugar na mesa,
Mais um nome na oração,
Da que consigo levara
Cruz, âncora e coração

(E o vento vinha ventando...)

Daquela de cujas penas
Só os anjos saberão.

sábado, 18 de maio de 2013

Minha rua- Mário Quintana

                                 Minha Rua
                                            Mário Quintana
          Minha rua está cheia de pregões.
          Parece que estou vendo com os ouvidos:
          Couves! Abacaxis! Caquis! Melões!
          Eu vou sair pro carnaval dos ruídos.

          Mas vem . Anjo da guarda... Por que pões
          Horrorizado as mãos em teus ouvidos?
          Anda: escutemos esses palavrões
          Que trocam dois gavroches atrevidos!

          Pra que viver assim num outro plano?
          Entremos no bulício quotidiano...
          O ritmo da rua nos convida.

          Vem! Vamos cair na multidão!
          Não é poesia socialista...Não,
          Meu pobre Anjo ... É ...simplesmente... a vida!...

sexta-feira, 17 de maio de 2013

É a mesma ruazinha sossegada- Mário Quintana


É a mesma ruazinha sossegada,
Com as velhas rondas e as canções de outrora...
E os meus lindos pregões da madrugada
Passam cantando ruazinha em fora!

Mas parece que a luz está cansada...
E, não sei como, tudo tem, agora,
Essa tonalidade amarelada
Dos cartazes que o tempo descolora...

Sim, desses cartazes ante os quais
Nós às vezes paramos, indecisos...
Mas para que?... Se não adiantam mais!...

Pobres cartazes por aí afora
Que nada anunciam: - ALEGRIA – RISOS
Depois do Circo já ter ido embora...

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O circo, o menino, a vida- Mário Quintana


O Circo o Menino a Vida


A moça do arame
Equilibrando a sombrinha
Era de uma beleza instantânea e fulgurante!
A moça do arame ia deslizando e despindo-se.
Lentamente.
Só para judiar.
E eu com os olhos cada vez mais arregalados
até parecerem dois pires.
Meu tio dizia:
"Bobo!
Não sabes
que elas trazem sempre uma roupa de malha por baixo?"
(Naqueles voluptuosos tempos não havia maiôs nem biquínis...)
Sim! Mas toda a deliciante angústia dos meus olhos virgens
segredava-me
sempre:
"Quem sabe?..."
Eu tinha oito anos e sabia esperar.
Agora não sei esperar mais nada
Desta nem da outra vida,
No entanto
o menino
(que não sei como insiste em não morrer em mim)
ainda e sempre
apesar de tudo
apesar de todas as desesperanças,
O menino
às vezes
segreda-me baixinho
"Titio, quem sabe?..."
Ah, meu Deus, essas crianças!

terça-feira, 14 de maio de 2013

Recordo ainda - Mário Quintana

Recordo ainda
     Mário Quintana
(Para Dyonelio Machado)

Recordo ainda… e nada mais me importa…
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta…
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança…
Estrada afora após segui… Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iluda o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino… acreditai…
Que envelheceu, um dia, de repente!


(A rua dos cataventos. Coleção Mario Quintana. 2a. edição. 6a. reimpressão. São Paulo: Globo, 2005. p. 26)

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Patinhos Cuacuacua- Vídeo de Silvia Cláudia Bennasar


Experimente este hit dos países de língua española. Músicas infantis traduzidas 

Canção de outono- Mário Quintana


Canção de Outono
outono
O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida…
Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia a contrapelo…
Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!
Mario Quintana )
(Poema publicado originalmente no livro Canções, retirado de Poesia Completa – Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 131) – contribuição de Sonia Regina Villarinho

domingo, 12 de maio de 2013

Se as coisas fossem mãe- Música.


Se as coisas fossem mães - Música original da peça - YouTube

www.youtube.com/watch?v=CBgkUyvr92w

12/05/2012 - Vídeo enviado por DanSantProducoes
Música tema da peça infantil "Se as Coisas Fossem Mães" deSylvia 
Orthof. Música de Marco Aureh ...


terça-feira, 7 de maio de 2013

Viagem Antiga- Mário Quintana

                                               Viagem Antiga
                                     Mário Quintana



          Aqui e ali
          reses pastando imóveis
         como um presépio

          e mata ocultando o xixi das fontes

          uma cidadezinha de nariz pontudo
          furava o céu

          depois sumia-se lentamente numa curva

          e a gente olhava olhava
          sem nenhuma pressa
          porque o destino daquelas nossas primeiras
viagens era  sempre o horizonte.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

De gramática e de linguagem- Mário Quintana


De Gramática e de Linguagem

                Mário Quintana
"E havia uma gramática que dizia assim:
"Substantivo (concreto) é tudo quanto indica
Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta".
Eu gosto das cousas. As cousas sim !...
As pessoas atrapalham. Estão em toda parte. Multiplicam-se em excesso.

As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com ninguém.
Uma pedra. Um armário. Um ovo, nem sempre,
Ovo pode estar choco: é inquietante...)
As cousas vivem metidas com as suas cousas.
E não exigem nada.
Apenas que não as tirem do lugar onde estão.
E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa porta.
Para quê? Não importa: João vem!
E há de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão,
Amigo ou adverso...João só será definitivo
Quando esticar a canela. Morre, João...
Mas o bom mesmo, são os adjetivos,
Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.
Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. luminoso.
Sonoro. Lento. Eu sonho
Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos
Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.
Ainda mais:
Eu sonho com um poema
Cujas palavras sumarentas escorram
Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,
Um poema que te mate de amor
Antes mesmo que tu saibas o misterioso sentido:
    Basta provares o seu gosto 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

A surpresa de ser- Mário Quintana


                                    A  Surpresa de ser
                          Mário Quintana

          A florzinha crescendo
          Subia 
          Subia
          Direito
          Pro céu
          Como na história de Joãozinho e o pé de 
Feijão.
          Joãozinho era eu
          Na relva estendido
          Atento ao mistério das formigas que trabalha-
vam tanto ...
          E as nuvens, no alto, pasmadas, olhando...
          E as torres, imóveis de espanto, entre voos a-
riscos
          Olhavam olhavam ...
          E a água do arroio arregalava bolhas atônitas
          Em torno de cada pedra que encontrava...
          Porque todas as coisas que estavam dentro do
balão azul daquela hora
          Eram curiosas e ingênuas como a flor que nascia.
          E cheias do tímido encantamento de se encontrarem juntas,
          Olhando- se...

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Indivisíveis- Mário Quintana


                                                                 Indivisíveis
                                      Mário Quintana

          O meu primeiro amor sentávamos numa pedra
          Que havia num terreno baldio entre as nossas
casas.
          Falávamos de coisas bobas,
          Isto é, que a gente grande achava bobas
          Como qualquer troca de confidências entre
crianças de cinco anos.

          Crianças...
          Parecia que entre um e outro nem havia ainda
          separação de sexos
          A não ser o azul imenso dos olhos dela,
          Olhos que eu não encontrava em ninguém mais,
          Nem no cachorro e no gato da casa,
          Que apenas tinham a mesma fidelidade sem
compromisso.
          E a mesma animal- ou celestial - inocência ,
          Porque o azul dos olhos dela tornava mais
azul o céu:
          Não, não importava as coisas bobas que dis-
séssemos.
          Éramos um desejo de estar perto, tão perto
          Que não havia ali apenas duas encantadas criaturas
          Mas um único amor sentado sobre uma tosca
pedra.
          Enquanto a gente grande passava, caçoava,    
ria- se, não sabia
          Que eles levariam procurando uma coisa assim por toda a sua vida...       

A terra em que nasceste

  Introdução O poema “Pátria” , de Olavo Bilac , convida a criança a olhar com amor, orgulho e admiração para a terra em que nasceu. Em ver...