segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Poesias de Roseana Murray Extraída da Internet- 1ª parte

OS PRIMEIROS
     
O que me separa do primeiro homem,
da primeira mulher do mundo,
dos seus medos, pavores, desejos,
anseios?

O que me separa quando o último
fio de lua ilumina a última
folha da mata
e em silêncio a manhã já se desgarra?

Uma fina película de tempo,
um grão de poeira de tempo.


BASTAM SEIS

Dizem que bastam seis,
seis homens ou mulheres
para que se alcance
qualquer pessoa perdida
em qualquer lugar
sobre a face da Terra.

E os que se mudaram para as estrelas,
os que já se foram e apagaram o cenário,
os que perdemos para sempre,
como alcançá-los, como atravessar
seu silêncio espesso, a sua falta
de substância, a sua dolorosa luz?


In Diário da Montanha, ed. Manati, 2012

HIBISCO

Há flores que se comem
como se fossem frutas,
numa comunhão entre
os olhos, a boca, o jardim.
Hibiscos coloridos, caprichosos,
derramam no prato a sua beleza,
passageira como um relâmpago,
e ao morder um hibisco
nos transformamos em poesia.

Abecedário (Poético) de Frutas, ed. Rovelle, 2013




ROUPA SUJA SE LAVA EM CASA

Nem teria graça
lavar roupa suja
no meio da rua,
no meio dos carros,
com o sinal aberto
ou fechado.
Mas em alguns lugares
ainda se lava roupa suja
nos rios
e é uma bela cena
para pintar aquarelas.
também se pode lavar
roupa suja
com água da chuva
mas é perigoso:
a roupa pode ficar
com gosto de céu.
A PALAVRA É DE PRATA E O SILÊNCIO É DE OURO

O silêncio é uma caixa
imensa onde cabem
e ressoam
todas as palavras
e há que pescá-las com cuidado.
Existem as redondas
e macias,
palavras vaga-lumes,
que iluminam a boca
de amor e doçura,
e outras com espinhos,
essa é melhor deixar
no fundo da caixa do mundo.

Dentro do silêncio
as palavras iluminadas
nadam
como peixes dourados.

In Quem vê cara não vê coração, ed. Callis & Instituto Houaiss, 2012

TERRACOTA

Da terra retiro
sua gama de cores:
ocre, vermelho, ferrugem,
terracota, outono,
o sol.
E pinto a alma em pinceladas
grossas, camada sobre camada,
para aguentar o peso do céu.

In Roseana Murray – Poemas para ler na escola,
Ed. Objetiva, 2011

CASA
Retiro o lastro da casa,
suas raízes na terra,
corto as amarras, as cordas,
tudo o que pesa se esvai.

Deixo que a tarde
com seu ar azul,
inunde a casa de luz,
retiro dos quatro cantos
a dor acumulada,
as flores mortas
e então, livre de todo o peso,
o relógio bate apenas
as horas de alegria
e em volta da mesa
todos os que partiram,
os que ficaram,
entrelaçam as mãos.

A casa voa.

In Roseana Murray – Poemas para ler na escola,
Ed. Objetiva, 2011



DANÇA
Então a vida é uma dança
de fogo
com a nossa sombra?
Sentimentos explodem,
um incêndio a cada passo.
como entrelaçar
todas as músicas
que me habitam?

In Roseana Murray – Poemas para ler na escola,
Ed. Objetiva, 2011



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