No meio do quarto a piscina móvel tem o tamanho do corpo sentado.
Água tá pelando! mas quem ouve o grito deste menino condenado ao banho?
Grite à vontade. Se não toma banho não vai passear.
E quem toma banho em calda de inferno?
Mentira dele, água tá morninha, só meia chaleira, o resto é de bica.
Arrisco um pé, outro pé depois.
Vapor vaporeja no quarto fechado ou no meu protesto.
A água se abre à faca do corpo e pula, se entorna em ondas domésticas.
Em posição de Buda me ensabôo,
Resignado me contemplo.
O mundo é estreito.
Uma prisão de água envolve o ser, uma prisão redonda.
Então me faço prisioneiro livre.
Livre de estar preso.
Que ninguém me solte deste círculo de água, na distância de tudo mais.
O quarto. O banho. O só.
O morno. O ensaboado. O toda-vida.
Podem reclamar,
podem arrombar a porta.
Não me entrego ao dia e seu dever.
Esse poema apresenta uma riqueza muito grande para leitura — e combina perfeitamente com o estilo do seu blog. Vou organizar já no formato que você vem usando 👇
📖 Poema
(texto que você já trouxe — manter assim na postagem)
💭 O que o poema discute?
O poema fala sobre um momento simples do cotidiano — o banho — que se transforma em algo muito maior. No início, há resistência, reclamação e até revolta do menino diante da água quente. Mas, aos poucos, esse momento se transforma em um espaço de silêncio, reflexão e até prazer.
O banho deixa de ser apenas uma obrigação e passa a ser um lugar de isolamento do mundo, onde o sujeito se encontra consigo mesmo. A ideia de “prisão de água” revela esse paradoxo: estar preso, mas ao mesmo tempo livre. O poema mostra como, mesmo em situações comuns, é possível criar um espaço de liberdade interior.
🌿 Leitura sensível
É um poema que começa com barulho — grito, protesto — e termina em silêncio e contemplação. A água, que antes incomodava, vira abrigo. O quarto se fecha para o mundo, e o menino cria ali um refúgio só dele.
A imagem final é muito forte: ele não quer sair, não quer voltar ao “dia e seu dever”. Como se aquele instante fosse uma pausa da vida, um pequeno universo onde ele pode simplesmente existir.
✨ Destaque do poema
“Então me faço prisioneiro livre.”
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