segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Terra Braba- Marilene Godinho



                         Terra Braba
                            Marilene Godinho

     Preciso das mãos  calosas do homem do campo
     para plantar verde e no solo inculto
     sedento de canaviais.
     Agasalhar o viver matuto remoído
     nas moendas do tempo sofrido.

     Não quero trocar chita por seda
     mas gamelas transbordam garapa azeda.

     Preciso dos pés descalços do homem do campo
     para pisar com força o rude egoísmo
     que não deixa compartilhar.
     As pegadas marcarão o rumo das cancelas
     sempre abertas no ranger das taramelas.

     Não quero trocar tamanco por sapato
     mas nas gravatas há muito aparato.

     Preciso da tímida desconfiança do homem do campo
     para crer, ressabiado, nas promessas
     carregadas de incerteza.
     Só é real o sonho limitado
     pelas choupana de sapé estrelado.

     Não quero trocar palácio por cafua
     mas há casebre com teto de lua.

     Preciso da sábia filosofia do homem do campo
     para conhecer ao certo a hora de partir.
     Trouxa e cuia no caminho.
     No canto da cigarra a hora de chover,
     no estio, após a chuva, a hora de colher.

     Não quero trocar escola por saber banal
     mas há broa mofado no fundo do bornal.
     
               

     Preciso da fé humilde do homem do campo
     para remover montanhas de corrupção
     numa terra de fraternidade.
     Se a migalha dividida não vier
     dizer:"Não tardará se Deus quiser".

     Não quero trocar oração por liturgia
     mas há muito conformismo na homilia.

     Preciso da viola dolente do homem do campo
     para cantar no velório em procissão
     dos seus justos ideais.
     Seus corpo só terá o abraço que previu
     na cova rasa da terra que se abriu.

     Não quero trocar toada por canção
     mas há muita gente morrendo sem razão.

     Preciso do suor sofrido do homem do campo
     para molhar, gota a gota, a secura da miséria
     que virá sobre nós.
     Praga da terra sobre os desiguais
     que não quiseram semear a paz.

     Não quero rimar amor nessa tardança
     mas sempre existe um rasgo de esperança!
       

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