Terra Braba
Marilene Godinho
Preciso das mãos calosas do homem do campo
para plantar verde e no solo inculto
sedento de canaviais.
Agasalhar o viver matuto remoído
nas moendas do tempo sofrido.
Não quero trocar chita por seda
mas gamelas transbordam garapa azeda.
Preciso dos pés descalços do homem do campo
para pisar com força o rude egoísmo
que não deixa compartilhar.
As pegadas marcarão o rumo das cancelas
sempre abertas no ranger das taramelas.
Não quero trocar tamanco por sapato
mas nas gravatas há muito aparato.
Preciso da tímida desconfiança do homem do campo
para crer, ressabiado, nas promessas
carregadas de incerteza.
Só é real o sonho limitado
pelas choupana de sapé estrelado.
Não quero trocar palácio por cafua
mas há casebre com teto de lua.
Preciso da sábia filosofia do homem do campo
para conhecer ao certo a hora de partir.
Trouxa e cuia no caminho.
No canto da cigarra a hora de chover,
no estio, após a chuva, a hora de colher.
Não quero trocar escola por saber banal
mas há broa mofado no fundo do bornal.
Preciso da fé humilde do homem do campo
para remover montanhas de corrupção
numa terra de fraternidade.
Se a migalha dividida não vier
dizer:"Não tardará se Deus quiser".
Não quero trocar oração por liturgia
mas há muito conformismo na homilia.
Preciso da viola dolente do homem do campo
para cantar no velório em procissão
dos seus justos ideais.
Seus corpo só terá o abraço que previu
na cova rasa da terra que se abriu.
Não quero trocar toada por canção
mas há muita gente morrendo sem razão.
Preciso do suor sofrido do homem do campo
para molhar, gota a gota, a secura da miséria
que virá sobre nós.
Praga da terra sobre os desiguais
que não quiseram semear a paz.
Não quero rimar amor nessa tardança
mas sempre existe um rasgo de esperança!
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