Nêga Bá
Marilene Godinho
Nêga bá, cê me criou,
o tempo não te levou
e eu já sei bem o porquê:
Quando abraço na saudade
todo bem que foi verdade,
lembrança busca 'Vancê".
Gorda , preta, de pituca
amarrada sobre a nuca,
ancas pra lá e pra cá.
"Oiá" puro, riso branco,
mãos pequenas, gesto franco,
no jeito de "peleja".
No balaio de acalantos
"pra mode" tirar quebrantos,
uma reza comovida.
Se eu demorasse dormir,
"vancê" benzia, a seguir,
minha "espinhela"caída.
Te lembro lavando roupa.
toda labuta era pouca
passada por tua mão.
Segredos eu te confiava,
mamãe " braba" me "raiava",
mas só tu eras meu chão.
Impossível me esquecer
do primeiro bem- quere.
Parece que "inté" te vejo:
Sorriso bem debochado,
me perdoou do pecado
daquele primeiro beijo.
Mesmo não sendo letrada,
foste sábia, iluminada,
criatura transparente.
Nada "docê" me mentia,
como espelho refletia
Teu coração era gente.
Foste sempre em minha vida,
orvalho, lua, guarida.
Te amo assim como és.
Nos momentos vacilantes,
nas "pianças" mais marcantes,
há um rastro de teus pés.
Cadê a nêga?Partiu.
(chovia). E o céu chorou.
Cadê a nêga sorriso?
Foi morar no paraíso
que ela mesma "apreparou".
"Esparramo" em teu caminho,
mil estrelas e carinho,
"mói de flô", rosa em buquê.
E Deus justo, sem defeitos,
vai repartir com os eleitos,
o céu que existe em "vancê".
Nenhum comentário:
Postar um comentário